sexta-feira, 3 de julho de 2026

Leia um conto do livro "O abismo olha de volta", de Héber Luciano

 


Nota do autor:⠀

O conto “Oh, mulher sentimental!” é significativamente o mais curto — e um dos mais antigos — da coletânea O Abismo olha de volta & outros contos. Baseado numa história real, que me foi contada por uma pessoa muito querida, ele abrange apenas 04 páginas do livro — que possui 152 páginas e apresenta dez histórias.

Entretanto, embora seja compacto, este conto é um dos mais comentados quando recebo feedback de leitores. Por isso decidi compartilhá-lo, na íntegra, como forma de apresentar meu livro aos leitores que eventualmente queiram adquiri-lo.

Espero que gostem da leitura!


***

Oh, mulher sentimental!


Sentado à cabeceira, fitando o bolo sobre a mesa, o avô se diz satisfeito pela presença de todos os integrantes da família. Neste momento, a avó leva as mãos ao peito e contempla, um a um, os semblantes dos convidados. Ela sabe de cor e salteado o aniversário dos familiares, desde os filhos — cinco homens de meia-idade — até o bisneto. Se quiser, pode fechar os olhos e desenhá-los mentalmente, sem deixar escapar um único fio de cabelo. Agora tenta digerir a frase do marido: todos os integrantes da família.

A avó se levanta, arrastando a cadeira, e cambaleia até o banheiro. Ao redor da mesa, os convidados se entreolham em silêncio. Depois os olhares convergem para o avô, que dobra o lábio inferior e dá de ombros, mãos espalmadas para o alto.

Dentro do banheiro, a avó tranca a porta e tomba de joelhos, encurvada na direção do vaso sanitário. Defronta a própria silhueta, refletida pela água, e se vê diante de um portal para o passado — em vez de uma idosa, o reflexo apresenta os contornos de uma jovem da década de 1960.

***

A moça se levantou, apoiada no assento do vaso sanitário, e cravou os olhos avermelhados no marido. Não o reconhecia. O que aconteceu com o homem que comprava rosas para cortejá-la? Ao analisar a mudança do companheiro, desde o primeiro flerte até o casamento, concluiu que, à medida que conquistava terreno no coração dela, ele fora se tornando cada vez mais displicente. E quando a tabeliã do cartório oficializou o casamento, foi como se o coração da moça houvesse sido passado para o nome dele. Então o descaso chegou ao limite. Agora, de frente para o marido, olhando-o sem reconhecê-lo, a moça teve a impressão de que, como numa gangorra, o amor não permitia equilíbrio — uma das partes sempre se elevaria, impelindo a outra para baixo. Com um suspiro, arrastou-se até o sofá, sobre o qual desabou. O marido a seguiu desde o banheiro, argumentando algo que não chegava aos ouvidos dela. Encolhida no sofá, a moça remoeu os acontecimentos do dia, soluçando como se trovejasse por dentro.
Mais cedo, ainda de madrugada, despertou com desconforto no útero. Tateou o ventre, ligeiramente inchado após três meses de gestação, e acordou o marido para comunicar os sintomas. Ele resmungou alguma coisa relacionada ao dia de folga e se virou para o outro lado da cama. Decorrido algum tempo, a moça voltou a chamá-lo: o desconforto evoluiu e virou uma dor intensa. Sem abrir os olhos, o homem prometeu que mais tarde buscaria um médico e a envolveu numa conchinha, acariciando-a no abdome. Depois as mãos dele tomaram outro rumo e levantaram a barra da camisola da esposa. Ela permaneceu rígida enquanto o marido se satisfazia. Quando ele rugiu e se virou para o outro lado, a moça constatou que sangrava por entre as pernas.

Não quis incomodar o marido. Lavou-se no banheiro e tomou remédio para cólica. Aproveitou que os filhos dormiam e empreendeu faxina na casa, sem que ninguém a atrapalhasse. Conforme trabalhava, sentia pontadas no ventre, como se fosse golpeada de dentro para fora. Ainda assim deixou a casa nos trinques e se encarregou de preparar o almoço.

No princípio da tarde, as contrações no útero se tornaram infernais. A moça ficou deitada no sofá, contorcendo-se de um lado para o outro. Ao verem a mamãe agonizar, os meninos abriram berreiro, parecendo sentir as dores dela. O estardalhaço forçou o homem a embarcar no Fusca para buscar um médico. Enquanto o marido esteve fora, a moça empenhou-se em recuperar a postura. Colocou-se de pé, apanhou as roupas no varal e começou a passá-las a ferro. De repente sentiu uma vertigem e caiu no chão. Sangrou novamente por entre as pernas, agora um sangramento escuro, coagulado, como se houvesse expelido parte das vísceras.

A moça não conseguiu se levantar.

Após uma eternidade, o marido chegou com o médico. Eles ergueram a moça e a levaram até o sofá. Usando luvas de borracha, o médico examinou o coágulo de sangue que a moça deixara no chão. Convidou o chefe da casa para uma conversa em particular. Enquanto esperava, pressionando as mãos contra o abdome, a moça se virava de um lado para o outro, esticando-se e se encolhendo em cima do sofá. Sobre o que conversavam o marido e o médico? Por que o segredo, se o problema dizia respeito a ela? Estava prestes a se levantar quando os dois reapareceram. O médico aferiu-lhe a pressão, receitou um remédio para a dor e recomendou repouso.

Mais tarde, naquele mesmo dia, a moça descobriu que havia sofrido um aborto espontâneo. Como se mencionasse um detalhe trivial, o marido disse que o doutor era tão competente que conseguiu identificar o sexo do feto — aquele coágulo de sangue que a moça expelira.

Seria uma menina.

A moça empalideceu, rosto paralisado, em seguida desatou a chorar, pensando no feto como um ser humano desenvolvido, dotado de fisionomia e personalidade. Era a menina que a moça tanto pedia a Deus. Mas Ele só enviava meninos. A moça desejara a menina com tanto fervor e por tanto tempo que até mesmo a havia batizado de antemão: Maria Cecília. Podia imaginar a menina fazendo-lhe companhia nos afazeres domésticos. Não haveria, no mundo inteiro, uma criatura tão leal quanto Maria Cecília. Uma verdadeira princesinha! A moça desembaraçaria o cabelo da filha, que seria castanho e interminável, igualzinho ao dela. Poderia transferir alguns ensinamentos, coisas que aprendera durante a vida, sozinha, para que a menina não lidasse com o fardo de ser exatamente igual à mãe…

Agora Deus levou Maria Cecília, antes que a moça pudesse segurá-la no colo. Da menina, restaria a pior saudade que um ser humano pode experimentar: uma espécie de saudade às avessas, em que a fonte da nostalgia não é o passado perdido, mas sim o futuro outrora plausível que se torna abruptamente impossível. Onde Maria Cecília estava? A moça precisava conhecer a filha — identificar-lhe os traços, ainda que microscópicos — para se despedir dela. Seria necessário enterrá-la dignamente, improvisar um túmulo, adorná-lo com flores…

— Ora — o marido resmungou. — Eu limpei o chão e joguei no vaso.

— V-você o quê?

— Joguei no vaso, ué. Era só —

— Não me diz que… — A moça se interrompeu e cambaleou até o banheiro. Ao se deparar com o vaso sanitário limpo, emitiu um guincho e tombou de joelhos, abraçando a bacia branca. — Você deu descarga na nossa filha?

— Filha? Que filha o quê! Era só um pedacinho de carne, desse tamanho assim, ó. — O marido mediu cinco milímetros entre o indicador e o polegar. Em seguida bufou e revirou os olhos. — Oh, mulher sentimental!

Ainda ajoelhada diante do vaso sanitário, a moça passou a murmurar frases indecifráveis que ressoavam como grunhidos de bicho no abatedouro. Em sua fala, apenas um detalhe era discernível: o nome Maria Cecília — ao qual se associava a imagem, não de um feto, mas sim de uma adorável bebezinha.

— Essas coisas acontecem — o marido balbuciou, empregando um tom de voz ao mesmo tempo imperativo e acanhado. — Pelo que o doutor disse, acontece mais do que a gente pensa. — Emitiu um muxoxo, mãos na cintura, e balançou a cabeça da direita para a esquerda. — Não precisa desse drama. Levanta daí, vai. Daqui a pouco você esquece.

[2022]

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