à mesa com kafka e van gogh
1.
não vejo a hora de morrer
e enfim me tornar interessante.
alguém vai perguntar:
onde — meu Deus — ele esteve escondido?
e será como a pessoa que procurava
pelos óculos com os óculos no rosto.
ao meu redor, uma fixação necrófila.
eu serei tão belo e talentoso
que deixarei de ser eu mesmo —
essa será a minha segunda morte.
2.
eu já disse: me sinto tão só
como se nunca houvesse nascido
ou como se houvesse nascido
para a posteridade.
ah, doce megalomania!
o mundo sem mim —
um mundo que só existe
porque posso imaginá-lo.
e me imagino sentando à mesa
com Kafka e Van Gogh…
enquanto, numa mesa distante,
sentam-se os fulanos
que nem mesmo mortos
parecem interessantes
(eles que, assim como eu,
esperavam na morte uma redenção).
3.
paleontólogos sopram
a poeira do meu nome.
vejam essa caixa torácica!
nela caberia um transatlântico!
no entanto, está irremediavelmente
vazia.
o que será que ele quis dizer?
agora só se pode especular…
ninguém vai entender
que importante mesmo
não era aquilo que eu disse,
mas aquilo que calei.
4.
então, pouco a pouco,
os curiosos se dispersam
feito urubus que abandonam
uma carcaça seca
e a vida continua exatamente
como antes de eu nascer.
ressentido, escrevo meu epitáfio
no box do banheiro,
pontilhado por lágrimas
que — juro! — não são minhas:
vou embora e levo comigo
o mundo inteiro.

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