sexta-feira, 3 de julho de 2026

"À mesa com Kafka e Van Gogh", um poema de Héber Luciano

 

à mesa com kafka e van gogh

 

1.

 

não vejo a hora de morrer

e enfim me tornar interessante.

 

alguém vai perguntar:

onde — meu Deus — ele esteve escondido?

 

e será como a pessoa que procurava

pelos óculos com os óculos no rosto.

 

ao meu redor, uma fixação necrófila.

eu serei tão belo e talentoso

 

que deixarei de ser eu mesmo —

essa será a minha segunda morte.

 

2.

 

eu já disse: me sinto tão só

como se nunca houvesse nascido

 

ou como se houvesse nascido

para a posteridade.

 

ah, doce megalomania!

o mundo sem mim —

 

um mundo que só existe

porque posso imaginá-lo.

 

e me imagino sentando à mesa

com Kafka e Van Gogh…

 

enquanto, numa mesa distante,

sentam-se os fulanos

 

que nem mesmo mortos

parecem interessantes

 

(eles que, assim como eu,

esperavam na morte uma redenção).

 

3.

 

paleontólogos sopram

a poeira do meu nome.

 

vejam essa caixa torácica!

nela caberia um transatlântico!

 

no entanto, está irremediavelmente

vazia.

 

o que será que ele quis dizer?

agora só se pode especular…

 

ninguém vai entender

que importante mesmo

 

não era aquilo que eu disse,

mas aquilo que calei.

 

4.

 

então, pouco a pouco,

os curiosos se dispersam

 

feito urubus que abandonam

uma carcaça seca

 

e a vida continua exatamente

como antes de eu nascer.

 

ressentido, escrevo meu epitáfio

no box do banheiro,

 

pontilhado por lágrimas

que — juro! — não são minhas:

 

vou embora e levo comigo

o mundo inteiro.


"A valsa da bailarina", um poema de Héber Luciano

 



a valsa da bailarina

 

terminada a festa, 

o compasso da valsa 

continua ecoando 

no pulsar do coração.

 

e ao fechar meus olhos, 

a menina dança. 

no palco da memória 

a menina ainda dança 

 

feito a bailarina de resina 

do pianinho antigo, 

a menina dança, e quando para, 

eu dou corda novamente.


Leia um conto do livro "O abismo olha de volta", de Héber Luciano

 


Nota do autor:⠀

O conto “Oh, mulher sentimental!” é significativamente o mais curto — e um dos mais antigos — da coletânea O Abismo olha de volta & outros contos. Baseado numa história real, que me foi contada por uma pessoa muito querida, ele abrange apenas 04 páginas do livro — que possui 152 páginas e apresenta dez histórias.

Entretanto, embora seja compacto, este conto é um dos mais comentados quando recebo feedback de leitores. Por isso decidi compartilhá-lo, na íntegra, como forma de apresentar meu livro aos leitores que eventualmente queiram adquiri-lo.

Espero que gostem da leitura!


***

Oh, mulher sentimental!


Sentado à cabeceira, fitando o bolo sobre a mesa, o avô se diz satisfeito pela presença de todos os integrantes da família. Neste momento, a avó leva as mãos ao peito e contempla, um a um, os semblantes dos convidados. Ela sabe de cor e salteado o aniversário dos familiares, desde os filhos — cinco homens de meia-idade — até o bisneto. Se quiser, pode fechar os olhos e desenhá-los mentalmente, sem deixar escapar um único fio de cabelo. Agora tenta digerir a frase do marido: todos os integrantes da família.

A avó se levanta, arrastando a cadeira, e cambaleia até o banheiro. Ao redor da mesa, os convidados se entreolham em silêncio. Depois os olhares convergem para o avô, que dobra o lábio inferior e dá de ombros, mãos espalmadas para o alto.

Dentro do banheiro, a avó tranca a porta e tomba de joelhos, encurvada na direção do vaso sanitário. Defronta a própria silhueta, refletida pela água, e se vê diante de um portal para o passado — em vez de uma idosa, o reflexo apresenta os contornos de uma jovem da década de 1960.

***

A moça se levantou, apoiada no assento do vaso sanitário, e cravou os olhos avermelhados no marido. Não o reconhecia. O que aconteceu com o homem que comprava rosas para cortejá-la? Ao analisar a mudança do companheiro, desde o primeiro flerte até o casamento, concluiu que, à medida que conquistava terreno no coração dela, ele fora se tornando cada vez mais displicente. E quando a tabeliã do cartório oficializou o casamento, foi como se o coração da moça houvesse sido passado para o nome dele. Então o descaso chegou ao limite. Agora, de frente para o marido, olhando-o sem reconhecê-lo, a moça teve a impressão de que, como numa gangorra, o amor não permitia equilíbrio — uma das partes sempre se elevaria, impelindo a outra para baixo. Com um suspiro, arrastou-se até o sofá, sobre o qual desabou. O marido a seguiu desde o banheiro, argumentando algo que não chegava aos ouvidos dela. Encolhida no sofá, a moça remoeu os acontecimentos do dia, soluçando como se trovejasse por dentro.
Mais cedo, ainda de madrugada, despertou com desconforto no útero. Tateou o ventre, ligeiramente inchado após três meses de gestação, e acordou o marido para comunicar os sintomas. Ele resmungou alguma coisa relacionada ao dia de folga e se virou para o outro lado da cama. Decorrido algum tempo, a moça voltou a chamá-lo: o desconforto evoluiu e virou uma dor intensa. Sem abrir os olhos, o homem prometeu que mais tarde buscaria um médico e a envolveu numa conchinha, acariciando-a no abdome. Depois as mãos dele tomaram outro rumo e levantaram a barra da camisola da esposa. Ela permaneceu rígida enquanto o marido se satisfazia. Quando ele rugiu e se virou para o outro lado, a moça constatou que sangrava por entre as pernas.

Não quis incomodar o marido. Lavou-se no banheiro e tomou remédio para cólica. Aproveitou que os filhos dormiam e empreendeu faxina na casa, sem que ninguém a atrapalhasse. Conforme trabalhava, sentia pontadas no ventre, como se fosse golpeada de dentro para fora. Ainda assim deixou a casa nos trinques e se encarregou de preparar o almoço.

No princípio da tarde, as contrações no útero se tornaram infernais. A moça ficou deitada no sofá, contorcendo-se de um lado para o outro. Ao verem a mamãe agonizar, os meninos abriram berreiro, parecendo sentir as dores dela. O estardalhaço forçou o homem a embarcar no Fusca para buscar um médico. Enquanto o marido esteve fora, a moça empenhou-se em recuperar a postura. Colocou-se de pé, apanhou as roupas no varal e começou a passá-las a ferro. De repente sentiu uma vertigem e caiu no chão. Sangrou novamente por entre as pernas, agora um sangramento escuro, coagulado, como se houvesse expelido parte das vísceras.

A moça não conseguiu se levantar.

Após uma eternidade, o marido chegou com o médico. Eles ergueram a moça e a levaram até o sofá. Usando luvas de borracha, o médico examinou o coágulo de sangue que a moça deixara no chão. Convidou o chefe da casa para uma conversa em particular. Enquanto esperava, pressionando as mãos contra o abdome, a moça se virava de um lado para o outro, esticando-se e se encolhendo em cima do sofá. Sobre o que conversavam o marido e o médico? Por que o segredo, se o problema dizia respeito a ela? Estava prestes a se levantar quando os dois reapareceram. O médico aferiu-lhe a pressão, receitou um remédio para a dor e recomendou repouso.

Mais tarde, naquele mesmo dia, a moça descobriu que havia sofrido um aborto espontâneo. Como se mencionasse um detalhe trivial, o marido disse que o doutor era tão competente que conseguiu identificar o sexo do feto — aquele coágulo de sangue que a moça expelira.

Seria uma menina.

A moça empalideceu, rosto paralisado, em seguida desatou a chorar, pensando no feto como um ser humano desenvolvido, dotado de fisionomia e personalidade. Era a menina que a moça tanto pedia a Deus. Mas Ele só enviava meninos. A moça desejara a menina com tanto fervor e por tanto tempo que até mesmo a havia batizado de antemão: Maria Cecília. Podia imaginar a menina fazendo-lhe companhia nos afazeres domésticos. Não haveria, no mundo inteiro, uma criatura tão leal quanto Maria Cecília. Uma verdadeira princesinha! A moça desembaraçaria o cabelo da filha, que seria castanho e interminável, igualzinho ao dela. Poderia transferir alguns ensinamentos, coisas que aprendera durante a vida, sozinha, para que a menina não lidasse com o fardo de ser exatamente igual à mãe…

Agora Deus levou Maria Cecília, antes que a moça pudesse segurá-la no colo. Da menina, restaria a pior saudade que um ser humano pode experimentar: uma espécie de saudade às avessas, em que a fonte da nostalgia não é o passado perdido, mas sim o futuro outrora plausível que se torna abruptamente impossível. Onde Maria Cecília estava? A moça precisava conhecer a filha — identificar-lhe os traços, ainda que microscópicos — para se despedir dela. Seria necessário enterrá-la dignamente, improvisar um túmulo, adorná-lo com flores…

— Ora — o marido resmungou. — Eu limpei o chão e joguei no vaso.

— V-você o quê?

— Joguei no vaso, ué. Era só —

— Não me diz que… — A moça se interrompeu e cambaleou até o banheiro. Ao se deparar com o vaso sanitário limpo, emitiu um guincho e tombou de joelhos, abraçando a bacia branca. — Você deu descarga na nossa filha?

— Filha? Que filha o quê! Era só um pedacinho de carne, desse tamanho assim, ó. — O marido mediu cinco milímetros entre o indicador e o polegar. Em seguida bufou e revirou os olhos. — Oh, mulher sentimental!

Ainda ajoelhada diante do vaso sanitário, a moça passou a murmurar frases indecifráveis que ressoavam como grunhidos de bicho no abatedouro. Em sua fala, apenas um detalhe era discernível: o nome Maria Cecília — ao qual se associava a imagem, não de um feto, mas sim de uma adorável bebezinha.

— Essas coisas acontecem — o marido balbuciou, empregando um tom de voz ao mesmo tempo imperativo e acanhado. — Pelo que o doutor disse, acontece mais do que a gente pensa. — Emitiu um muxoxo, mãos na cintura, e balançou a cabeça da direita para a esquerda. — Não precisa desse drama. Levanta daí, vai. Daqui a pouco você esquece.

[2022]

domingo, 18 de junho de 2023

Três poemas do livro COLECIONADOR DE PERDAS, de Héber Luciano

 



o danúbio azul
 

e se de repente todo velório

fosse realizado com o anfitrião

ainda vivo, consciente?

algo como um aniversário,

ou melhor, uma visita neonatal

às avessas, não um culto à morte,

mas uma celebração da vida,

da autobiografia concluída

(embora toda vida seja

uma obra incompleta),

não uma noite de autógrafos,

mas de últimos abraços.

 

o anfitrião de smoking,

ou, se preferir, a camisa do seu time

e a sua bermuda favorita, pois

não haverá tempo para formalidades,

não haverá razão para formalidades,

“ah! você veio!” dirá o anfitrião

a um antigo melhor amigo

que há muito o magoou,

já sem nenhum rancor, pois,

se ele não pode levar o relógio de prata

nem o Fiat Uno que pagou

em quarenta e oito prestações,

por que então levar ao além-túmulo

os rancores do mundo terreno?

 

ah não! os rancores seriam correntes

a serem quebradas para libertá-lo,

e o filho poderia pedir perdão

pelas visitas que não fez nesta década,

e a filha de quarenta e dois anos

poderia dançar com o pai,

pela segunda e última vez,

a valsa de debutante,

e haveria uma valsa para cada ex-namorada

(“eu sinto muito por —”

“ah! isso não importa!”),

 

e a iminente-viúva não teria ciúmes

porque a ela seria destinado

O Danúbio Azul,

à meia-noite, à meia-luz,

os dois girando no centro do salão,

a cauda branca do vestido dela

como nuvens a suspendê-lo,

e ao redor, flores, muitas flores,

rosas, lírios, margaridas, crisântemos —

enfim todas as flores que uma pessoa

jamais recebe em vida.


*

utopia

 

revê-la depois desta longa separação

e encontrar, intactas, a conexão e a ternura

dos velhos tempos, feito alguém que

se depara com uma música na rádio

após vários anos sem escutá-la

e percebe que ainda a sabe de cor

e sente a avassaladora emoção da descoberta

no ato de redescobrir.


*

divisão de bens

 

após o divórcio,

ficaram com ela a casa

e a guarda da filha.

com ele ficaram o carro

e a televisão de 58 polegadas.

 

ficaram com ela os livros

e o vira-lata caramelo.

com ele ficaram os quadros

e a estatueta da Afrodite.

 

ficaram com ela a cama de casal

e o espaço vazio do colchão.

com ele ficaram o videogame

e o joystick que sobrou.

 

ficou com ela o silêncio dele,

ressoando na casa

como uma peça de Chopin.

com ele ficou o silêncio dela,

rangendo no apartamento

feito unhas num quadro negro.

 

ficou com ela o perdão

para as desculpas

que ele nunca pediu.

com ele ficaram as palavras

que vieram tarde demais —

como a ambulância que chega

quando o paciente já está morto.

 

ficaram com ela o trauma

e um alívio vazio.

com ele ficaram o remorso

e uma liberdade inútil.

 

ficou com ela o hábito dele

de temperar a comida com limão.

com ele ficou o costume dela

de entornar creme de leite no miojo.

 

no vocabulário dela ficaram

as gírias que ele empregava.

na playlist dele ficaram

as músicas que ela escutava.

 

dos anos que viveram juntos,

ficaram na memória

pequenos instantes.

 

da paixão inconsequente

ficou a filha, e na menina ficarão

as covinhas e o cabelo da mãe,

os olhos e o sorriso do pai,

a presença constante da mãe,

a ausência constante do pai.

 

com a filha, que não tem culpa

dos equívocos do mundo adulto,

deve ficar integralmente

o amor que os uniu.

 

e na existência da filha

irá se concretizar

a promessa de eternidade

que os dois fizeram um dia.

*
SOBRE O LIVRO


COLECIONADOR DE PERDAS reúne 50 textos no estilo poema-crônica, escritos por Héber Luciano. Questões psicológicas e emocionais são o foco da antologia.

Temas existenciais, como solidão e morte, são destrinchados e condensados nestes poemas prosaicos. O amor, sobretudo em seu estado líquido, também é dissecado na antologia.

Os textos apresentam uma linguagem simples, mas com alta dosagem lírica, oferecendo ao leitor frases de impacto — seja por sua beleza ou por sua pungência.

Em resumo, COLECIONADOR DE PERDAS retrata a alma humana, com suas minúcias e contradições, desde a superfície luminosa até o âmago sombrio.


terça-feira, 8 de junho de 2021

Meus contos favoritos

 


Quem acompanha meu trabalho já deve ter percebido meu fascínio por contos. Sem dúvida é o gênero literário que eu mais consumo, acima do romance, da poesia e da crônica. Infelizmente, para mim, o conto não é tão popular quanto as ficções longas ou os livros de não ficção. Afinal, quantas vezes nós vimos um livro de contos entre os mais vendidos da Amazon?

    Em todo o caso, eu acho que talvez seja importante tentar transmitir às pessoas um pouco desse meu fascínio pelas narrativas curtas. Por isso decidi compartilhar a lista dos meus contos preferidos, organizados de acordo com o nome dos autores, em ordem alfabética. Ao longo da lista, alguns títulos estão marcados com corações para identificar os meus favoritos dentre os favoritos. Com o passar do tempo, essa lista certamente vai se estender. Confira a lista e veja se já conhece alguma dessas pequenas obras-primas.

Em memória de Paulina — Adolfo Bioy Casares
Jakarta — Alice Munro
Tati, a garota — Aníbal Machado
Viagem aos seios de Duília — Aníbal Machado 💘
Angústia — Anton Tchekhov 
Criançada — Anton Tchekhov
Volódia — Anton Tchekhov
Amor — Clarice Lispector 💘
Viagem a Petrópolis — Clarice Lispector
A viúva do noivo — Carlos Drummond de Andrade
Um telefonema — Dorothy Parker
A arte de desaparecer — Enrique Vila-Matas
A capital do mundo — Ernest Hemingway
As neves do Kilimanjaro — Ernest Hemingway 💘
O fim de alguma coisa — Ernest Hemingway
O resíduo da felicidade — F. Scott Fitzgerald
Homens sem mulheres — Haruki Murakami
Obscenidades para uma dona de casa — Ignácio Loyola Brandão
O motorista noturno — Ítalo Calvino 💘
O sonhador — John Fante
Sou um escritor da verdade — John Fante
Uma esposa para Dino Rossi — John Fante
Quando saí de Havana, valha-me Deus — José Emílio Pacheco 💘
O gargalhada — J. D. Salinger
O Tio Novelo em Connecticut — J. D. Salinger 💘
Conto de verão nº 2: Bandeira Branca — Luís Fernando Veríssimo 💘
Tudo sobre Sandrinha – Luís Fernando Veríssimo 💘
Apenas um saxofone — Lygia Fagundes Telles
Correspondência — Lygia Fagundes Telles 💘
O moço do saxofone — Lygia Fagundes Telles
Verde lagarto amarelo — Lygia Fagundes Telles 💘
Negrinha — Monteiro Lobato
O vitral — Osman Lins 💘
O elo partido — Otto Lara Resende 
O visitante — Ray Bradbury
Distância — Raymond Carver
Do que falamos quando falamos de amor — Raymond Carver
Eles não são seu marido — Raymond Carver
Ponha-se no meu lugar — Raymond Carver
Vândalos — Raymond Carver 💘
Sons — Vladimir Nabokov
A mão do macaco — William Wymark Jacobs